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O Nobre Lugar de Escuta

um artigo de
Luiza Sarmento

Muito se fala sobre lugar de fala, muito se fala nesses lugares de falas. Vozes há muito caladas finalmente encontraram espaço,microfone, amplificador, e sua turma, nas redes sociais. Ouvimos sobre as feridas do preconceito, exclusão, desigualdade, dor, mágoas, a luta para fazer parar de sangrar, e sobre os passos dos que buscam caminhos de cura. Há os incomodados com toda essa fala e há os a muitos e muitos séculos incomodados, impedidos,violados e assassinados. Para aqueles que dependendo de onde encarnaram nesta existência e hoje gozam dos privilégios inatos da roleta da vida, cabe um exercício muito digno e importante. O que, a meu ver, é a chave da colaboração para a cura de toda esta dor coletiva: Lugar de Escuta.

 

Quem não sabe ouvir chama de mi mi mi, “coitadismo” e brada: Já chega de tanto falar! A ausência de empatia, aumenta o volume das vozes, mas nunca as cala. É preciso perceber que, se você não foi ferido, você faz parte ou do grupo dos que ferem, dos que se omitem, ou dos que compram o barulho. Portanto,dependendo do grupo que você faz parte, em cada circunstância, nem tudo que se fala é sobre você. Mas muito também é. E  se você nunca sofreu algumas dessas feridas na sua vida, ouvir, não vai arrancar pedaços e ajudará você a elaborar e curar outras dores que avida certamente lhe impôs. Todos temos feridas.

Foto: Junior Albuquerque

 

Eu mulher considerada e tratada como branca (mas nem tão branca assim, segundo a árvore genealógica), heteronormativa, de classe media, que teve todas as oportunidades que poderia sonhar nesta vida, ao ocupar meu lugar de escuta, ouço: Posso ser ainda mais grata do que sou. Devo me posicionar diante da violência. E medito sobre o peso do constrangimento de ter tido acesso a tanto, numa sociedade aonde isso não é o mais comum. Observar meus privilégios me dá muito o que pensar e responsabilidades a abraçar.

 

Algumas dores também doem de se ouvir. Por isso, lugar de escuta é lugar de gente nobre, que entende seu papel no corpo social. Se observarmos com atenção, é oque pede a própria natureza: dois ouvidos e uma boca. A boca fala daquilo que a alma está cheia. Os ouvidos, doam escuta. Ouça! Apenas ouça! Se a palavra é prata, o silencio é ouro. 

 

E nessa escuta também precisamos ter atenção ao silêncio, pois ele costuma ser empático, a quem fere e a quem é ferido. Tem hora pra tudo, mas só se pode compreender o momento de cada coisa quando conhecemos também a escuta. Você pode silenciar ao ouvir sobre uma dor, sem emitir opinião ou julgamento. Uma escuta que acolhe. Você também pode silenciar diante de uma injustiça, nesse caso é uma escuta que valida a violência. Uma escuta que agride.

 

De tudo que tenho me proposto a ouvir, muito tenho aprendido sobre o mundo em que estou, e a pessoa que tenho me tornado e me proposto a lapidar. Por isso hoje sei que falar é curar, ouvir é raro, “empatizar” é urgente e posicionar-se é caráter!

 

Luiza Sarmento, jornalista e ativista em consumo consciente e sustentabilidade,apresentadora da Causa Justa.


 

 

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