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Lembrança do São João

um artigo de
Luiza Sarmento

Lá em casa era assim: minha irmã e o namorado, faziam aniversário de namoro bem no dia de São João, então cada aniversário deles era motivo de muita festa. Irmã do meio numa família de três filhos, sagitarianos, festa e fogueira era com agente mesmo! Nossos amigos e universos sempre foram muito próximos, então não havia na vida coisa mais legal do que juntar todo mundo. Eu chamava os meus amigos, meu irmão, minha irmã, cunhado, seu irmão, nossos pais, os deles, e todos nos divertíamos muito, montando a festa, pulando a fogueira e dançando quadrilha.

Lembro-mede esperarmos o fim da festa para comer as batatas-doces que colocávamos embrulhadas no papel alumínio junto à brasa da fogueira. Aguardávamos o momento de desembrulhá-las, para comer o purê doce e quentinho, com manteiga, enquanto arrumávamos a bagunça, como se fosse um prêmio por mais um ano celebrando. Mas não faltavam iguarias… e a canjica da mamãe? Se-nhor! É dessas coisas maravilhosas cheias de sabor e recordações. Um cheiro inundado de passado e memórias de um tempo em que as divergências políticas acabavam nelas mesmas e todos podíamos comer e comemorar, sem que nossas diferenças nos partissem.

Batata-doce/Foto:Junior Albuquerque

As festas de São João em família, tão planejadas e aguardadas, do passado, já não existem mais. A casa no final da rua, onde montávamos a fogueira foi vendida. A relação familiar que sustentava essa alegria, foi comprometida pelo desgaste dos embates políticos. O namoro virou casamento e a irmã se mudou pra outro estado, bem distante. Tudo ficou meio triste. Sobram as memórias. Boas memórias e um nó na garganta de saudade de um tempo mais vivo, do calor do caldo verde aquecendo a barriga, da grande roda, da quadrilha do túnel e do anarriê. 

As festas nacionais, para mim hoje são assim: meio felizes, meio tristes. Lembram-mede uma alegria que está no DNA de nosso povo sofrido, que não desiste de comemorar, como se a festa fosse ao mesmo tempo seu ópio e seu oxigênio, sua cola e sua cortina de fumaça. Algo que nos une, nos acalenta e nos distrai da dureza que é encarar o Brasil de hoje.

Luiza Sarmento, jornalista e ativista em consumo consciente e sustentabilidade,apresentadora da Causa Justa.











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